sábado, 22 de julho de 2017

A saga de Fionn

Fonte: MACCULLOCH, J.A. “The Religion of the Ancient Celts”. 1911. Disponível em: <http://sacred-texts.com/neu/celt/rac/index.htm>.

CAPÍTULO VIII.
A saga de Fionn

                Os personagens mais proeminentes da saga de Fionn, depois da morte de Cumal, o pai de Fionn, são Fionn, seu filho Oisin, seu neto Oscar, seu sobrinho Diarmaid com seu ball-seirc, ou “ponto da beleza”, o qual nenhuma mulher poderia resistir; Fergus, famoso por sua sabedoria e eloquência; Caoilte mac Ronan, o veloz; Conan, o personagem cômico da saga; Goll mac Morna, o assassino de Cumal, mas depois o devoto amigo de Fionn, além de outros diversos personagens menos importantes. Suas atividades, como as dos heróis de outras sagas e epopeias, são principalmente a caça, a luta e o sexo. Eles personificam bastante as características célticas – vivacidade, bravura, bondade e sensibilidade, tal como a vanglória e o temperamento impetuoso. Embora seja datada de tempos pagãos, a saga mostra pouco sobre as crenças pagãs, mas revela muita coisa em relação aos hábitos daquele período. Aqui, como sempre foi no início do celtismo, a mulher é mais que uma posse e ocupa um lugar relativamente importante. As diversas partes da saga, como aquelas do Kalevala finlandês, sempre existiram separadamente, nunca como uma epopeia completa, embora sempre tiveram uma certa relação umas com as outras. Lonnrot, na Finlândia, foi capaz, adicionando alguns vínculos próprios, de dar uma unicidade ao Kalevala, e se MacPherson se contentasse em fazer isso pela saga de Fionn, ao invés de inventar, transformar e servir o todo à maneira do sentimental século XVIII, ele teria trazido um benefício para a literatura céltica. As várias partes da saga pertencem à séculos diferentes e vem de autores diferentes, todas, no entanto, imbuídas com o espírito da tradição de Fionn. Não pode ser dada uma data para os inícios da saga, e adições foram feitas até o final do século XVIII, com o poema de Michael Comyn de Oisin em Tír na n-Og sendo uma parte genuína dela como qualquer uma das partes mais antigas. Seus conteúdos são, em parte, escritos, mas a maior parte é oral. Grande parte da saga está em prosa, e há bastante literatura poética do tipo “balada”, tal como o Märchen [NT: palavra alemã para “contos de fadas”] da criada linha universal puramente céltica com Fionn e o resto do bando heróico como os protagonistas. A saga personifica os ideais e as esperanças celticas; ela foi a literatura do povo céltico na qual se passava todas as riquezas da imaginação céltica; um mundo de sonho e fantasia na qual eles poderiam entrar em qualquer hora e se divertirem. Contudo, a respeito de sua imensa variedade, a saga preserva uma certa unidade e é provida de uma estrutura definida, recontando a origem dos heróis, os grandes eventos nos quais eles se envolvem, suas mortes ou aparições finais e o término do bando de Fionn.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Os métricos Dindshenchas: Carn Máil

Notas preliminares: Este dindshenchas (histórias que contam a origem dos lugares na Irlanda), relata a história de Lugaid Mal, um dos filhos do rei Daire, que foi exilado da Irlanda e posteriormente morreu em uma planície em Ulster, em um lugar que ficou conhecido como Carn Máil (Cairn de Mal), em sua homenagem. No entanto, o poema conta principalmente a história de quatro dos sete filhos do rei Daire, todos com o primeiro nome 'Lugaid', que caçaram um gamo encantado que seu pai possuía. Após a caçada do gamo, eles vão até uma casa, onde aparece uma gigante horrível que pede para se deitar com um deles, caso contrário, ela devoraria todos. Um deles, Lugaid Loeg, aceita dormir com ela, e então, a mulher horrível se transforma em uma linda donzela. A mulher em questão tem algumas semelhanças com Cailleach e com a Soberania - que a princípio parece horrível, mas depois se revela maravilhosa para aqueles que a merecem. Uma outra versão desta história está registrada no Cóir Anmnan.      

Poema/história 29
Carn Máil

1. Agradável é o tema que cai aos meus cuidados, o conhecimento não de um único lugar apenas, enquanto meu espírito lança luz para o leste, aos lugares secretos do mundo.

2. Como é que nenhum de vocês exigem, se ele busca tecer a teia do conhecimento, de onde, em qualquer época, veio o nome de Carn Mail na oriental Planície de Ulaid?

3. Lugaid Mal, ele forjou uma grande ruína, foi exilado de Erin: com sete cargas de navios, o príncipe viajou de Erin até a terra de Alba.

terça-feira, 18 de julho de 2017

Os métricos Dindshenchas: Carmun

Poema/história 1
Carmun

1. Escutai, homens de Leinster dos túmulos,
Ó tropa que governa Raigne dos direitos santificados,
Até que vós obtenhais de mim, reunida em todas as mãos,
A nobre lenda de Carmun, alta em fama!

2. Carmun, local de encontro de uma feira hospitaleira,
Com relvados planos para corridas:
As tropas que costumavam vir para sua celebração
Conquistaram em suas brilhantes corridas.

3. Uma sepultura de reis é seu nobre cemitério,
Especialmente querido para as tropas de alta categoria;
Sob os montes das assembleias estão muitos
De sua tropa de uma linhagem sempre honrada.

sábado, 15 de julho de 2017

Os métricos Dindshenchas, vol. 1

Boa noite! Vocês agora podem acessar o arquivo "Os métricos Dindshenchas, vol. 1", traduzido do irlandês médio por Edward Gwynn, e do inglês, por mim, na seção "Mitologia" aqui do blog, ou clicando na imagem abaixo. 

O primeiro volume compreende 6 poemas/histórias, com os 5 primeiros focando na história de Temair (Tara), e o último, em Achall (uma colina perto de Tara).

Espero que seja útil e que Brigit e Ogma abençoem a todos!

 Os métricos Dindshenchas, vol. 1
Os métricos Dindshenchas, vol. 1
    

segunda-feira, 10 de julho de 2017

A loucura de Suibhne

A loucura de Suibhne
Buile Suibhne

                Quanto à Suibhne, filho de Colman Cuar, rei de Dal Araidhe, nós já contamos como ele ficou vagando e fugindo das batalhas. Aqui está a causa e a ocasião através dos quais estes sintomas e crises de loucura e êxtase se apoderaram dele além de todos os outros, do mesmo modo, o que aconteceu com ele posteriormente.

                Existia um certo nobre e distinto santo patrono na Irlanda: Ronan Finn, filho de Bearach, filho de Criodhan, filho de Earclugh, filho de Ernainne, filho de Urene, filho de Seachnusach, filho de Colum Cuile, filho de Mureadhach, filho de Laoghaire, filho de Niall. Ele era uma homem que cumpria o comando de Deus e carregava o jugo da piedade, e sofria perseguições pelo amor de Deus. Ele era o próprio servo digno de Deus, pois era seu costume crucificar seu corpo pelo amor de Deus e conquistar uma recompensa para sua alma. Um escudo acolhedor contra os ataques malignos do diabo e contra vícios era o gentil, amigável e vigoroso homem.

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Feliz Grianstad an tSamhraidh!

Oferendas para Áine Chliar na minha celebração.

          Feliz Grianstad an tSamhraidh! No hemisfério norte, é comemorado o solstício de verão por volta dos dias 21-22 de junho. Apesar de não ser certo que o solstício de verão tenha sido cultuado como um festival pelos gaélicos pré-cristãos (por ter uma suposta influência nórdica e pela ausência do festival nos manuscritos irlandeses), hoje o celebramos como tal, visto que se tornou parte da tradição pela variedade de costumes associados com o dia em todos os países gaélicos. Tradicionalmente, ritos para Áine, com procissões de tochas, eram feitos em Munster, na colina de Knockaine, e na Ilha de Man, os ilhéus pagavam o “aluguel” da ilha para seu dono, Manannán mac Lir, também como agradecimento pela proteção e por suas bênçãos. Fogueiras eram acesas representando o poderio solar dessa época do ano, ervas eram colhidas na meia-noite, pois se acreditava que elas tinham poderes mágicos na noite mais curta do ano e haviam procissões para colinas e lagos, onde as festividades aconteciam – regadas com muita comida, bebida, danças, competições e narrativas, sempre ao redor da fogueira principal do festival ou de um mastro de madeira conhecido como craebh.

terça-feira, 27 de junho de 2017

Celebrando o Solstício de Verão

Fonte: Site “Tairis: Celebrating Midsummer”, por Annie Loughlinn. Disponível em: < http://www.tairis.co.uk/celebrations/celebrating-midsummer/>. All content by Annie Loughlin ©2015-2016. 

Celebrando o Solstício de Verão  

Manannán é um deus encontrado tanto nas tradições irlandesas como nas escocesas (e, é claro, nas manesas), e é uma divindade bastante popular no politeísmo moderno, onde é visto como um rei sobrenatural e um guardião de portais, um deus do mar e de lugares aquáticos, um deus que testa e desafia. Para muitos politeístas gaélicos, ele é o deus mais naturalmente associado com as celebrações do solstício de verão, com festas e ritos sendo realizados em sua honra. Áine também reivindica o dia e tem tradicionalmente sua fortaleza em Cnoc Áine, no Condado de Limerick, onde ritos fúnebres são realizados em sua honra na véspera do Solstício de Verão.

terça-feira, 20 de junho de 2017

Palestra - O Dagda: uma visão geral de seus atributos, mitos e características

Atendendo a pedidos, compartilho com vocês a palestra que dei no 8º Encontro Brasileiro de Druidismo e Reconstrucionismo Celta, sobre o Dagda. Para acessar o arquivo, basta clicar na imagem. Espero que possa ser útil! :)


quinta-feira, 11 de maio de 2017

Feliz Beltain!

Foto da minha celebração.

               Oíche mhaith! Sei que já passou bastante um pouquinho da data, mas venho desejar um feliz Beltain para todos!  O festival, que é celebrado tradicionalmente no dia 1° de maio (ou 1° de novembro, no hemisfério sul), anuncia a chegada do verão e é a época em que o Povo dos Sídhe está bastante ativo, pronto para causar confusão. O nome “Beltain”, que também é conhecido como Cetsamain, significa “fogueira brilhante”, e como essa tradução sugere, fogueiras eram acesas para simbolizar o poderio solar mais forte nessa época do ano (já que no hemisfério norte é verão...) e para purificar o gado e as pessoas que passassem pelas suas brasas ou que pulassem suas chamas. Tradicionalmente, a chama da lareira era apagada somente nessa época do ano, e era acesa com a chama trazida dessas grandes fogueiras comunitárias, ao redor das quais as divertidas celebrações aconteciam.

                Para os antigos gaélicos, a chegada do verão era uma época de muita alegria, prazer e festejos. Até os dias de hoje em algumas áreas rurais da Irlanda, são feitos os chamados “Arbustos de Maio” – pequenos arbustos decorados com fitas coloridas, serpentinas, ovos pintados, etc., e os “Galhos de Maio”, que apesar do que se poderia esperar, são versões maiores dos Arbustos, sendo usadas árvores ou partes grandes de árvores para o mesmo propósito. Apesar de toda a diversão e alegria, no entanto, medidas eram tomadas para se proteger do Povo do Sídhe, e para tal, as pessoas penduravam flores (normalmente amarelas, como o malmequer-dos-brejos e o ranúnculo) na entrada de suas casas ou nas janelas, impedindo que as “fadas” entrassem, ou eram colocadas nos animais da fazenda para protegê-los do “olho gordo” das pessoas que eram capazes de roubar a produção de leite das vacas, por exemplo.


Caudle para o Beltain

O caudle é uma receita escocesa tradicional, feita normalmente com ovos, aveia e alguma bebida alcoólica, normalmente vinho branco ou cerveja inglesa. O caudle feito para o Beltain, que é a receita abaixo, adiciona leite na composição, mas apesar de ser para o Beltain, pode ser usado em qualquer outro festival ou ocasião, como oferenda, uma bebida ou acompanhamento para alguma sobremesa, como bannocks, por exemplo. Apesar de ser um dos ingredientes principais, eu optei por fazer sem álcool, assim como os temperos também são opcionais.    

Caudle para o Beltain

Caudle usado como oferenda, junto com bannocks.