terça-feira, 19 de junho de 2012

O Solstício de Verão

Fonte: Site “Tairis: Midsummer”, por Annie Loughlinn. Disponível em: < http://www.tairis.co.uk/festivals/midsummer/>. All content by Annie Loughlin ©2015-2016. 

Solstício de Verão

Ao contrário das evidências para o Là na Caillich, temos certeza das evidências para as celebrações ritualizadas da véspera do Solstício de Verão (ou Véspera de S. João, Noite da Fogueira¹, Féill Sheathain,² Teine Féil’ Eóin,³ ou Feaill Eoin4) no dia 24 de junho na Escócia,5 ou na véspera do dia de S. João na Irlanda, no dia 23 de junho.6 No entanto, a proveniência dessas celebrações são discutíveis, e mais uma vez, assim como os outros festivais focados nos solstícios e equinócios, as evidências parecem apontar para uma forte influência estrangeira nas celebrações.7

Algumas das mais antigas menções das celebrações do Solstício de Verão na Escócia datam ao século XVI, normalmente no contexto de serem condenadas (e então banidas) pela Igreja devido às suas perceptíveis associações pagãs.8 Enquanto que a Igreja oficialmente desaprovava tais celebrações, elas na realidade persistiram até os séculos XVIII e XIX, mas eram notavelmente presentes apenas nas áreas de alta influência escandinava ou inglesa, como as Terras Baixas e as partes ao nordeste da Escócia.9


Essa distribuição, junto com um padrão similar no País de Gales, sugere que uma influência estrangeira é a responsável, mas ao olharmos para a Irlanda e para a Ilha de Man, o assunto se complica, uma vez que em face disso, uma forte tradição de celebrações do Solstício de Verão é dominante em ambos os países.10 A evidência para as celebrações do Solstício de Verão na Irlanda pode ser traçada até o início do século XIV,11 apesar de nesse caso as referências serem especificamente para a véspera de S. Pedro (no dia 28 de junho. O dia de S. Pedro era frequentemente celebrado da mesma forma que a véspera de S. João, possivelmente fornecendo uma “segunda chance” para as celebrações externas no caso de um mau tempo na data anteior)12 em tons menos condenatórios que aqueles encontrados na Escócia, mas notavelmente, a referência de New Ross em 1305 vem de uma cidade de colonizadores ingleses.13

As fogueiras em si eram uma característica comum das celebrações do Solstício de Verão em todos os lugares, e uma descrição das fogueiras em Shropshire no século XIV nota a ignição de três fogueiras separadas:

“No culto de S. João, os homens se levantam nas vésperas e fazem três tipos de fogueiras: uma é de ossos limpos; a outra é de madeira limpa e sem ossos, sendo chamada de ‘wakefire’ [NT: não encontrei a tradução própria para este termo, mas seria algo como ‘fogo que desperta’], pois os homens se sentam e são acordados por ela; a terceira é feita de ossos e madeira e é chamada de ‘fogueira de S. João’. O fedor dos ossos queimando (...) acreditava-se expulsar os dragões.”14 

Os ossos são mencionados as vezes em fontes escocesas, existindo também um elemento de algum tipo de lamento ou ritos fúnebres envolvidos nas descrições que chegaram até nós, sugerindo uma origem em comum. Nos ritos escandinavos do Solstício de Verão, presumia-se que as fogueiras representavam a pira funerária de Baldr e do visco colhido nessa época.15 Certos elementos ritualísticos podem ecoar esse costume em um contexto gaélico, como será visto; por outro lado, a forte sobreposição nos costumes encontrados nas celebrações de Bealltainn e do Solstício de Verão sugere uma mudança de foco de Bealltainn para as festividades do Solstício de Verão com o passar do tempo. De acordo com Joyce, algumas partes da Irlanda celebravam as fogueiras no dia 1º de maio, enquanto outras celebravam no dia 24 de junho.16 Isso talvez seja consequência da anglicização do ano ritualístico (sob cuja influência os velhos festivais gaélicos presumivelmente foram menos favorecidos em comparação com os grandes festivais no calendário inglês), mas também da influência eclesiástica, com a crescente popularidade de S. João, a quem o dia é dedicado, e da mudança de foco dos ritos percebidamente ‘pagãos’ que eram inerentes ao Bealltainn. Por volta do século XIX, as celebrações de Solstício de Verão podiam ser encontradas pela maior parte da Europa e até mesmo em algumas partes ao noroeste da África.17 Com as atitudes muito mais insulares das áreas Gàidhealtachd, tanto socialmente como religiosamente em muitas partes, a resistência em adotar tais festividades não nativas pode ser explicada.

As fogueiras na Escócia
               
Como já foi observado, os costumes e tradições associados com o Solstício de Verão na Escócia eram grandemente limitados às Terras Baixas e ao norte e leste da Escócia – as áreas que tinham mais influência escandinava e inglesa – mas mais especificamente, as Ilhas Nortenhas podem ser vistas como a fortaleza da tradição.18 Dada a mudança das tradições de suas conotações pagãs, não é surpresa encontrar uma grande sobreposição entre estes costumes e tradições com os encontrados no Bealltainn.19   

                As celebrações começavam na véspera da Festa de S. João Batista (dia 24 de junho), e o principal ponto focal das festividades era a fogueira, apesar dos ritos de acompanhamento serem solenemente observados mais ao norte do que nas Terras Baixas, onde se dava mais ênfase para a diversão e festividade.20 Estas fogueiras eram geralmente acesas após o crepúsculo – que nessa época do ano era bem tarde na verdade,21 e ao redor da fogueira tinha comida (como o gudebread)22 e bebidas, junto com danças e saltos nas chamas, e depois, as pessoas levavam o fogo para suas casas.23

                Em Orkney, de acordo com um pastor do século XVIII, as turfas para a fogueira eram dadas pelas pessoas cujos cavalos ficaram doentes ou foram castrados durante o ano, com o gado então sendo conduzido no sentido horário ao redor das chamas.24 As fogueiras eram acesas “no local mais conspícuo da comunidade, comumente virado para o sul,”25 sugerindo um foco comunal natural, uma vez que essa posição, presumivelmente, permitiria que o fogo pudesse ser visto da maior parte das casas na região (e assim, estas casas obteriam o benefício das chamas), enquanto que a posição sul provavelmente fornecia a melhor oportunidade para a fumaça se espalhar sobre a maior parte dos campos na região.26

                Em algumas fogueiras, um osso era atirado ou colocado nelas, sempre sendo explicado como simbolizando um animal que anteriormente tinha sido sacrificado para o fogo, ou, o osso pode ser a representação de um homem que se tornou um mártir (apesar de ninguém parecer se lembrar muito em detalhes).27 Isso pode talvez ser visto como evidência de um eco da influência escandinava, com as associações de Baldr com o dia.

                Ramos de bétula eram colhidos e pendurados sobre a porta para proteção,28 e tochas de urze ou tojo eram acesas na fogueira principal e levadas para a casa pelo chefe de família, onde ele então a carregava dando três voltas no sentido horário nos campos para abençoar as plantações, o repolho e o repolho crespo [NT: kail, ou kale, também traduzido como ‘couve’] e garantir uma boa colheita.29 O mesmo era feito ao redor da vacaria para abençoar o gado e protegê-lo de doenças ou casting calves [NT: esse termo é obscuro para mim e não encontrei a tradução]. Enquanto isso, os jovens rapazes e meninos permanecem na fogueira, esperando as chamas abaixarem antes de saltá-las e depois iam para casa ao amanhecer.30

                Os pescadores de Shetland se reuniam na véspera do Solstício de Verão para a Festa dos Pescadores e brindavam para o mar e para as plantações para garantir uma boa pesca e colheita. Cada homem brindava por vez e dizia, “Senhor! Abra a boca do peixe cinza e segure tua mão sobre o grão.”31

                O Solstício de Verão também era a época em que se acreditava que as bruxas e fadas estavam mais poderosas e vigorosas. Tomava-se cuidado para não dar qualquer produto lácteo a fim de que o lucro não deixasse a casa junto com o produto.32 Apesar de haver perigos inerentes da estação, esse poder tinha um lado positivo na colheita de ervas especiais, especialmente aquelas usadas para cura ou proteção, já que elas estariam no auge de seu poder. A Erva de São João era especialmente procurada, algumas das quais eram penduradas na casa e nas dependências para a proteção contra relâmpago e influências malignas, enquanto que outras podiam ser queimadas na fogueira ou colocadas nos campos.

                Carmichael dá diversos encantamentos que eram usados para a colheita da Erva de São João – ou Planta de São Columba, como também era conhecida – e nota que ela era mais potente quando descoberta acidentalmente ao invés de ser encontrada propositalmente:

“Plântula de Columba,
Sem busca, sem procura,
Plântula de Columba,
Abaixo de meu braço, para sempre! (…)”34

                Com suas propriedades protetoras, a planta era frequentemente costurada nos corpetes e vestes para que ficasse abaixo da axila esquerda da pessoa que usasse, garantindo que nenhum mal da bruxaria ou do Bom Povo viesse e nem que a pessoa fosse prejudicada pelo olho gordo ou pela segunda visão.

                Procuravam-se também sementes de samambaia, já que era considerado que ela tinha propriedades potentes e protetoras similares:

“’É apenas na véspera do Solstício de Verão,’ é dito, ‘que pode ser colhida a maravilhosa samambaia de semeadura noturna. Nessa única noite ela amadurece de doze para uma, e então cai e desaparece instantaneamente... Ela tem a maravilhosa propriedade de tornar as pessoas invisíveis.’”35

Dizia-se que os frutos de sabugueiro colhidos no Solstício de Verão oferecia proteção contra a bruxaria, mas também concedia poderes mágicos para aqueles que o colhessem.36

As fogueiras na Irlanda

                As evidências para a Irlanda são muito mais abundantes que na Escócia, e como se pode imaginar, elas seguem as mesmas linhas: fogueiras e bênçãos para o gado e colheitas com arbustos em chamas, junto com costumes mais específicos como a colheita da Erva de São João.

                Além de tudo isso, existiam os ‘modelos’ [NT: o termo em inglês é pattern, mas não consegui encontrar uma tradução melhor] – encontros religiosos que se realizavam frequentemente nas encostas de colinas, lagos e poços sagrados. Estes eram tão notórios pelas suas facções brigando uma contra as outras como eram famosas pelas rodas votivas que eram feitas pelos peregrinos presentes, ou pelas danças, bebidas, comidas, jogos e outros tipos de diversão. O ‘modelo’ de Glendalough diz-se ter sido “... um local inseguro a menos que um magistrado pago e cerca de 100 policiais mantivesse os combatentes, os Byrnes, Tools e Farrells, etc, separados uns dos outros.”37 Tais encontros foram eventuamente banidos pela igreja no século XIX, tanto pela violência e devassidão ébria que se tornaram associadas com eles como pelos seus notórios vestígios pagãos, embora todas as versões despojadas destes encontros terem sobrevividos em agumas partes.38

                As fogueiras normalmente eram um negócio da aldeia inteira, exceto em áreas extremamente remotas onde as fazendas tendiam a ter suas próprias fogueiras.39 Exceções também eram feitas se houvesse uma morte recente na família; nesse caso, as fogueiras não eram acesas, os ritos não eram feitos, seja em casa ou na fogueira comunal40 – presumivelmente, com a morte sendo tão recente, a família estava ‘manchada’ por isso, arriscando espalhar tal azar para a comunidade, caso participassem. Caso contrário, não observar e participar dos ritos era um convite certeiro para a falha e o desastre das colheitas.41

                No caminho para as festividades, pedia-se combustível de porta em porta na aldeia. Uma vez que era considerado azar (ou puramente maldade) se recusar a contribuir com qualquer coisa, a fogueira da aldeia era normalmente bem alimentada nesse aspecto, com turfas, lenha e até mesmo móveis velhos e outros tipos de lixo inflamável (mais recentemente, até mesmo pneus), e ficava tão alta que era necessária uma escada para terminar de empilhar o combustível no topo. As crianças também recolhiam em volta galhos, gravetos e qualquer outra coisa que encontrassem para contribuir para a fogueira.42  

                A fogueira principal era acesa quando o sol se punha, e esta tarefa frequentemente era reservada ao velho sábio da aldeia, que a acendia com uma oração tradicional para a ocasião:

“’In onóir do Dhia agus do Naomh Eoin, agus chun toraidh agus chun taibhe ar ár gcur agus ar ár saothar in ainm an Athar agus an Mhic agus an Spirid Naoimh, Amen.’ ‘Em honra a Deus e São João, para a fecundidade e lucro de nossa plantação e trabalho, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, Amém.’”43

Após a fogueira ser acesa, água benta era borrifada ao seu redor e nas chamas para abençoá-la. Em alguns lugares, isto era feito pelo homem que acendeu o fogo, mas no Condado de Cork, muitas vezes era uma criança que recebia esse trabalho.44 Com o encerramento das formalidades, as festividades começavam com músicas, cantos, danças, comidas, bebidas, jogos, histórias, competições e diversões. Em algumas partes da Irlanda, era comum erguer um craebh, um grande mastro de madeira que formava o ponto central do encontro e era o lugar onde as competições de dança aconteciam, com pães de gengibre sendo dados como prêmios para os homens, e ligas, para as mulheres.45 É tentador ver tal prática como sendo um tipo de bile artificial.  

Em Connaught, o ‘goody’ [NT: uma sobremesa irlandesa] (pão branco, comprado especialmente do padeiro) era muitas vezes a única comida oferecida, embebida no leite quente temperado e adoçado (o leite tendo sido roubado da vaca de um vizinho, na maior parte do tempo). Esta gostosura era cozida em uma grande panela, aquecida na fogueira principal ou em uma fogueira menor feita especificamente para esse cozimento.46

Essa fogueira principal era normalmente situada em um lugar onde o vento pudesse carregar a fumaça sobre as principais plantações da área para que elas pudessem obter as qualidades protetoras da fogueira.47 Lady Wilde dá uma boa descrição das festividades que aconteciam quando as chamas se apagavam:

“Quando o fogo se reduzia a uma luz vermelha, os rapazes se desnudavam até a cintura e saltavam sobre ou pelas chamas; isto era feito para trás e para frente diversas vezes, e aquele que enfrenta a maior das chamas é considerado o vitorioso sobre os poderes do mal e é saudado com um tremendo aplauso. Quando o fogo queima ainda mais baixo, as meninas saltam as chamas, e aquela que der um salto limpo três vezes para trás e para frente terá certamente um casamento rápido e boa sorte na vida, com muitos filhos. As mulheres casadas então caminham pelas brasas, e quando o fogo estava quase apagado e pisoteado, o gado de um ano era conduzido pelas cinzas quentes e suas costas era chamuscada com uma vara de aveleira em brasa. Essas varas de aveleira eram guardadas posteriormente, sendo consideradas de imenso poder para conduzir o gado de e para lugares com água. Conforme o fogo diminui, a gritaria abaixa e a música e dança começa, enquanto contadores de história profissionais narram os contos da terra das fadas ou de bons tempos passados, de muito tempo atrás, quando os reis e príncipes da Irlanda habitavam entre seu próprio povo e havia comida para comer e vinho para beber por todos os cantos para a festa na casa do rei.”48   

O salto na fogueira em particular era de grande importância, não apenas para a sorte ou casamento, mas também para saúde.49 As cinzas em particular, eram vistas como tendo fortes propriedades de cura, e quando tiradas da fogueira e guardadas para uso, um pouco delas poderia ser misturado com água e então bebida para curar doenças gerais, ou ainda, era usada para lavar cortes, machucados, feridas e coisas do tipo.50 Sobre isso, Hedderman (escrevendo com uma característica irritação com tais superstições ridículas) descreve um caso onde um rapaz sofre com um dedo séptico. Enquanto Hedderman argumenta que o rapaz deveria manter tais feridas limpas para prevenir a infecção, o pai do menino tem uma opinião diferente:

“Seu pai, que estava sentado em uma cadeira no canto, levantou-se, e balançando um punho fechado, pronunciando alto uma dúzia de pragas, exclamou ‘Eu sabia que seria assim; ele não pegou em um carvão em brasa da fogueira da noite de São João.’”51

Os carvões em brasa também eram colocados no campo, na vacaria, no celeiro e na casa. Além da cura, acreditava-se que guardar um pouco das cinzas em casa era bom para trazer sorte ou garantir uma morte gentil para os mais velhos. Um pouco das cinzas ou brasas também poderia ser colocado na lareira,52 e em casas construídas recentemente, uma pá era levada até a fogueira e parte dela era levada até a nova casa para que o primeiro fogo da casa tivesse sido aceso a partir da fogueira de São João, garantindo sorte e prosperidade para seus habitantes.53

Nos campos, as cinzas ou brasas eram atiradas para todos os cantos para abençoar as plantações e garantir uma colheita abundante, ou ainda, um arbusto ou um feixe de juncos podiam ser acesos e carregados ao redor dos limites da fazenda, conduzidos pelos campos e atirados nas plantações.54 A tocha também poderia ser levada ao redor da casa, da vacaria e da leiteria, e em alguns condados (como no Condado de Clare), tocava-se o gado com a tocha para garantir filhotes saudáveis. As cinzas ou brasas da fogueira colocadas na leiteria garantia sorte e abundância de leite e manteiga, tal como protegia contra bruxaria. Uma vareta carbonizada poderia também ser trazida da fogueira e usada para marcar uma cruz na porta e nos equipamentos de fabricação da manteiga.55

Em Munster, as tochas eram feitas de feixes de feno e palha, amarrados em mastros, acesos, e então levados pela colina – Cnoc Áine – onde a fogueira principal era acesa. A procissão era feita inteiramente por homens e conduzida por um membro da família Quinlan, de acordo com os Fitzgerald.56 As tochas – cliars – eram levados até o topo da colina, e depois desciam para os campos, sendo conduzidas entre o gado. Diversas fontes falam dessa procissão como sendo um tipo de procissão funerária para Áine, a deusa tutelar da região, realizada em memória à ela, da mesma forma que o Bom Povo, que diz-se fazer procissões dessa mesma maneira.57 Mais uma vez, tais associações são remanescentes dos ritos funerários de Baldr, mas também, talvez, evocam associações meio lembradas dos ritos funerários realizados em honra à divindades tutelares como Tailtiu no Lùnastal, que não estava muito distante dessa data.

Antes de se dirigirem até a fogueira principal, as famílias frequentemente acendiam uma fogueira na fazenda como um foco para os ritos protetores e bênçãos que seriam realizados. Essas fogueiras eram normalmente muito menores em escala do que as ‘grandes fogueiras’, constituídas de “normalmente não mais que um ou dois arbustos de tojo ou um montículo de galhos, ou um ou dois relvados de turfa em chamas acesas na lareira da cozinha.”58 Como são pequenas, não se esperava que as chamas durassem muito tempo, tal como não eram encorajadas a aumentarem, e uma vez que os ritos terminassem, todos eram livres para se conduzirem ao evento principal.59 Os ritos eram similares àqueles encontrados na grande fogueira – uma bênção era feita em nome de Deus, água benta era borrifada na casa, nas construções da fazenda, no gado, nas plantações e naqueles que participassem.60

Enquanto que se acreditava que as cinzas tinham propriedades de cura, diversas plantas eram consideradas especialmente potentes, tal como na Escócia. Procurava-se pela Erva de São João, assim como a artemísia no Condado de Cork e Waterford, apesar de haver certa liberdade na época de sua colheita que provavelmente acomadava o mau tempo e o tempo de diferença entre as datas do Velho e Novo Estilo – qualquer época entre o Solstício de Verão e o dia 4 de julho.61 O suco da Erva de São João era então cozido e bebido como uma prevenção contra doenças.62

As fogueiras na Ilha de Man

                A Ilha de Man nos dá alguns exemplos bem importantes dos ritos festivos do Solstício de Verão, mostrando as influências tanto da cultura nórdica como da gaélica. Enquanto que as fogueiras eram acesas e o gado e os campos eram abençoados com tochas de tojo (ou junco) como em outros lugares, e a artemísia era colhida como uma prevenção contra a bruxaria,63 algumas diferenças distintas podem ser encontradas na forma dos aluguéis, ou oferendas, que eram pagos a Manannán nessa época.

                Manannán tem sido há muito tempo associado com a Ilha de Man, e a tradição o retrata como o primeiro rei da ilha – um líder benevolente e pacífico, ainda que pagão. Uma descrição da ilha do século XVI tem isso a dizer sobre ele:

                “Manann MacLer, o primeiro homem que teve Mann, ou que já foi o governante de Mann, e a Terra foi nomeada a partir dele, ele reinou muitos anos e foi um pagão [NT: o termo original é Paynim, que significa alguém que não é cristão; no caso, optei por traduzir como pagão], e mantinha a Terra de Mann sob brumas através de necromancia, e se temesse quaisquer inimigos, ele faria com que um homem parecesse uma centena através de sua arte mágica. Ele nunca teve qualquer fazenda comunitária, mas cada um levava uma certa quantidade de juncos verdes na véspera do Solstício de Verão, alguns para um lugar chamado Warfield,64 e outros para um lugar chamado Man, e ainda assim é feito.”65
               
Um poema do século XVI tem quase a mesma coisa a dizer sobre isso, e um escritor do século XVII, James Chaloner, repete os mesmos sentimentos similares em sua obra A Short Treatise on the Isle of Man.66 Moore, ao escrever no século XIX, nota que uma fazenda próxima a um dos lugares onde os aluguéis eram pagos ainda cresce uma abundante quantidade de juncos em seu dia,67 então, presumivelmente, este era um costume bem estabelicido, embora eu ainda não tenha encontrado relatos de primeira mão o descrevendo. Em Barrule, Rhys notou que o local era visitado em outras épocas do ano, notavelmente a primeira segunda-feira da colheita, e há uma abundância de evidências de oferendas sendo feitas em um poço próximo, incluindo alfinetes entortados e botões.68
               
Embora pareça existir uma certa confusão, em algumas fontes, sobre se é ofertado a rainha-dos-prados [NT: ou ulmária, meadow grass] ou juncos, o consenso favorece os juncos69; eles não são apropriados apenas por causa do local onde crescem – perto de água, doce ou salgada – mas também são associados com outro costume relacionado com os ritos do Solstício de Verão realizados em seu nome. Esta é a Corte de Tynwald, realizada em uma colina próxima à Capela de São João na ilha, onde todos se reúnem para ouvir as leis e regulamentos que seriam decretados. Ao se aproximar da colina, espalhava-se juncos verdes no caminho.70
               
Estas são as fortes associações de Manannán com esse dia – na véspera do festival de ninguém menos que São João Batista – e apenas reforça as associações do deus e do santo conforme notado em outros textos, nas oferendas para Shony.71

Conclusão

                Enquanto que existem muitas similaridades com Bealltainn, e provavelmente de influências estrangeiras, o Solstício de Verão certamente também é um festival por si só. Em todos os ritos – as fogueiras, as bênçãos, as procissões e etc. – havia uma forte preocupação em proteger a colheita e a continuidade da saúde do gado (mais especificamente, do rebanho). Por volta dessa época no calendário agrícola, as plantações estariam crescendo vigorosas, e por volta do próximo mês, a colheita começaria. As semanas seguintes seriam cruciais para o sucesso da colheita, portanto, seria natural vigiar as plantações nessa época, quando o potencial da colheita era aparente, e tomar cuidados para tentar prevenir desastres. Dessa forma, com o calendário pastoral preocupado com as vacas parindo bezerros, se já não tiverem nascidos, a fertilização bem sucedida das vacas e o então nascimento dos bezerros também eram primordiais na mente do fazendeiro.

                Em tal época de mudança no calendário solar, o povo enfrentava um dos períodos mais ocupados do ano, tal como o gradual declínio da luz do dia, no qual muito desse trabalho podia ser feito. As fogueiras podem ter sido vistas como simbolizando essa mudança do sol, conforme MacCulloch sugere, mas mais do que qualquer outra coisa, as qualidades protetoras das fogueiras em si eram mais enfatizadas. Em primeiro lugar, a véspera do Solstício de Verão era sobre proteger as colheitas; sem ter muito para se celebrar em termos de abundância imediata, já que as celebrações de colheita seriam mais tarde, e o Bealltainn marcava a estação de ordenha do verão, as celebrações da véspera do Solstício de Verão estavam, por um lado, preocupadas com o futuro, enquanto que por outro lado, marcava uma breve pausa no trabalho antes do verdadeiro esforço começar.

                As semanas seguintes provavelmente seriam uma luta para muitas famílias, uma vez que os suprimentos de batatas, trigo, aveia, cevada ou centeio do ano passado, teria diminuido significantemente – ou acabados, ainda mais se o ano passado tivesse sido particularmente ruim. O mês de julho era conhecido como ‘Julho faminto’, ou Iúl an Ghorta na Irlanda,72 em referência à esse problema, e algumas medidas desesperadas precisavam ser tomadas. Em face dessa perspectiva, as celebrações do Solstício de Verão certamente dava um pouco de esperança e otimismo.

Referências

1. Danaher, The Year in Ireland, 1972, p134.
2. In Gaelic (Scots Gaelic), Black, The Gaelic Otherworld, 2005, p556.
3. In Irish, Danaher, The Year in Ireland, 1972, p134.
4. In Manx, Moore, Folklore of the Isle of Man, 1891, p119.
5. Black, The Gaelic Otherworld, 2005, p556.
6. Danaher, The Year in Ireland, 1972, p137.
7. MacCulloch, The Religion of the Ancient Celts, 1911, p257-258.
8. Hutton, Stations of the Sun, 1996, 317-318.
9. Hutton, Stations of the Sun, 1996, 319; McNeill, The Silver Branch Volume II, 1959, p86.
10. Hutton, Stations of the Sun, 1996, 319.
11. Em um sentido eclesiástico, o dia sagrado foi bem estabelecido já no século IX, no entanto. Ver Stokes, The Martyrology of Oengus the Culdee, Félire Oengusso Céli dé, 1905, p142: “[24 de junho] o real nascimento de São João Batista, se tu participou diligentemente, na remoção sem desgraça de João o filho (de Zebedeu) para Éfeso.”
12. Hutton, Stations of the Sun, 1996, p312.
13. Hutton, Stations of the Sun, 1996, p312; p319-320.
14. Hutton, Stations of the Sun, 1996, p312.
15. Fraser, The Golden Bough, p676.
16. Joyce, A smaller social history of Ancient Ireland, 1906, p123.
17. Hutton, Stations of the Sun, 1996, 312.
18. McNeill, The Silver Bough Volume II, 1959, p90.
19. McNeill, The Silver Bough Volume II, 1959, p92.
20. Hutton, Stations of the Sun, 1996, p318.
21. Na verdade, na maior parte do norte da Escócia nunca fica realmente escuro por volta da época do solstício de verão. McNeill descreve o pôr do sol nessas partes como “dificilmente mais que um crepúsculo vesperal.” McNeill, The Silver Bough Volume II, 1959, p89.
22. O gudebread se refere a qualquer tipo de produtos assados tais como shortbreads, scones doces e bannocks dos festivais, ou simplesmente um pão de qualidade de massa branca comprada de padeiros (que teria sido considerado um deleite raro para muitos, na época). McNeill, The Silver Bough Volume II, 1959, p89.
23. McNeill, The Silver Bough Volume II, 1959, p91.
24. McNeill, The Silver Bough Volume II, 1959, p90.
25. McNeill, The Silver Bough Volume II, 1959, p91.
26. Thistelton-Dyer nota que esse era o caso na escolha da localização das fogueiras em Man, Thistelton-Dyer, British Popular Customs, 1911, p316.
27. Thistelton-Dyer nota que esse era o caso na escolha da localização das fogueiras em Man, Thistelton-Dyer, British Popular Customs, 1911, p316.
28. Napier, Folk Lore, or, Superstitious Beliefs in the West of Scotland Within this Century, 1879, p117; McNeill, The Silver Bough Volume II, 1959, p89.
29. Hutton, Stations of the Sun, 1996, p318.
30. Spence, Shetland Folklore, 1899, p90; Napier, Folk Lore, or, Superstitious Beliefs in the West of Scotland Within this Century, 1879, p117; McNeill, The Silver Bough Volume II, 1959, p91.
31. County Folklore – Orkney and Shetland, p195.
32. Spence, Shetland Folklore, 1899, p139.
33. McNeill, The Silver Bough Volume II, 1959, p88.
34. Carmichael, Ortha nan Gàidheal: Carmina Gadelica Volume II, 1900, p101. Charm 167.
35. Carmichael, Ortha nan Gàidheal: Carmina Gadelica Volume II, 1900, p101. Charm 167.
36. Carmichael, Ortha nan Gàidheal: Carmina Gadelica Volume II, 1900, p101. Charm 167.
37. Evans, Irish Folk Ways, 1957, p263-264.
38. Evans, Irish Folk Ways, 1957, p264.
39. Ó Súillebháin, Irish Folk Custom and Belief, 1967, p71.
40. Danaher, The Year in Ireland, 1972, p145.
41. Danaher, The Year in Ireland, 1972, p134-136.
42. Danaher, The Year in Ireland, 1972, p138.
43. Danaher, The Year in Ireland, 1972, p139.
44. Danaher, The Year in Ireland, 1972, p142.
45. Danaher, The Year in Ireland, 1972, p151-152.
46. Danaher, The Year in Ireland, 1972, p151-152.
47. Danaher, The Year in Ireland, 1972, p145.
48. Wilde, Ancient Legends, Mystic Charms, and Superstitions of Ireland, 1887, p214-215.
49. Ó hÓgáin, Irish Superstitions, 1995, …
50. Danaher, The Year in Ireland, 1972, p147.
51. Hedderman, Glimpses of my Life in Arran, 1917, p95.
52. Danaher, The Year in Ireland, 1972, p147.
53. Danaher, The Year in Ireland, 1972, p135-136.
54. Danaher, The Year in Ireland, 1972, p145.
55. Danaher, The Year in Ireland, 1972, p146.
56. Dames, Mythic Ireland, 1992, p63-64.
57. Ver ‘Mannanaan Mac Lir’ in Journal of the Cork Historical and Archaeological Society, ii, 1896, p366-367. Danaher, The Year in Ireland, 1972, p153; Dames, Mythic Ireland, 1992, p63-64.
58. Danaher, The Year in Ireland, 1972, p144.
59. Danaher, The Year in Ireland, 1972, p145.
60. Danaher, The Year in Ireland, 1972, p142.
61. Danaher, The Year in Ireland, 1972, p147-148.
62. Ó Súillebháin, Irish Folk Custom and Belief, 1967, p71.
63. Train, History of the Isle of Man Vol II, 1845, p120. See also Thistelton-Dyer, British Popular Customs, 1911, p316.
64. Hoje é conhecido como Barrule do Sul. Moore, The Folklore of the Isle of Man, 1891, p5-6.
65. A The Supposed True Chronicle, originalmente do século XVI, encontrada em Parr, An Abstract of the Laws, Customs and Ordnances of the Isle of Man, 1867, p6.
66. (1656) Reimpresso em 1863, ver a edição online.
67. Moore, The Folklore of the Isle of Man, 1891, p5-6.
68. Rhys, Celtic Folklore: Welsh and Manx, 1901, Capítulo 4.
69. MacQuarrie, The Waves of Manannán, 1997, p294.
70. MacQuarrie, The Waves of Manannán, 1997, p294.
71. Black, The Gaelic Otherworld, 2005, p590-591.
72. Danaher, The Year in Ireland, 1972, p165.

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