Introdução


          Existe muita informação incorreta e citações obscuras em relação a religião dos gaélicos, e dos celtas em geral. “Informações” criadas e forjadas pela imaginação e romantismo de pessoas com pouco ou nenhum saber sobre o tema, propagando fantasias com bases em obras de ficção e de autores que dominam qualquer outro assunto que não a seja religião céltica. Por esse motivo, resolvi escrever este pequeno texto introdutório acerca da religião gaélica reconstruída hoje, explicando de uma forma resumida e rápida os temas e o porquê de se reconstruir a religião dos gaélicos, quem era esse povo e seus princípios religiosos.

          Em primeiro lugar, ao falarmos sobre os “celtas” hoje, estamos nos referindo a uma designação dada à alguém que pertencia a alguma comunidade onde uma língua céltica era falada, sendo, portanto, um termo “guarda-chuva” para um grupo de povos que tiveram a mesma origem linguística, o Proto-Céltico ou o Céltico Comum (que por sua vez surgiu do seu ancestral Indo-Europeu), e que compartilham similaridades entre si: os gaélicos (irlandeses, escoceses e maneses), córnicos, bretões, gauleses, galeses, etc. Contudo, o termo “celta” é uma denominação puramente moderna, dada pelo estudioso galês Edward Lhuyd em 1770, ao descobrir que as línguas irlandesa, escocesa, bretã, córnica e manêsa tinham uma relação com a língua supostamente falada por algumas tribos que viviam mais ou menos ao norte da Grécia, a quem os gregos chamaram de “Keltoi” e os romanos, de “Celtae”, “Galli” ou gauleses. Sendo assim, os povos “célticos” como conhecemos hoje nunca se chamariam por esse título, podendo ter existido provavelmente designações tribais que cada colônia dava para si.

          O reconstrucionismo, de forma geral, é um movimento religioso e cultural que busca reconstruir a religião pré-cristã de determinados povos, aos quais o reconstrucionismo é dedicado. No caso do reconstrucionismo céltico, enfrentamos algumas dificuldades em relação às outras religiões reconstruídas da Europa, uma vez que, já que os antigos povos celtas não escreviam sobre suas crenças, muito de seu conhecimento sobre eles e sobre sua fé se perdeu após uma ruptura com o passado politeísta ocasionado pela chegada do cristianismo na Europa, e consequentemente, a conversão destes povos.

          A expressão “reconstrucionismo céltico” é um termo guarda-chuva, podendo abranger todas as nações célticas, como os gaélicos, gauleses, galeses, bretões, etc., e sendo assim, possui muitas ramificações dependendo do foco que o praticante adota em seu culto, sendo o politeísmo/reconstrucionismo gaélico um desses exemplos, que é o que trataremos nesse texto. O movimento foi idealizado por volta dos anos 80 por um grupo de pessoas que queriam seguir uma religiosidade céltica mais “genuína” sem a interferência de elementos ecléticos ou “New Age”. No entanto, ele só foi realmente estabelecido em 1985, no Pagan Spirit Gathering, por um grupo de pessoas que realizaram diversos workshops e debates sobre os temas célticos, e sete anos depois, em 1992, o termo foi cunhado pela primeira vez, sendo usado para diferenciar tais práticas das tradições wiccanas ou de neo-druidismo em voga na época.  

          Ao escrever sobre o politeísmo gaélico, um dos “ramos” do reconstrucionismo céltico, nossa tentativa é de criar um sistema religioso útil e aplicável aos nossos dias modernos, através de estudos do que restou desses povos pré-cristãos, como a arqueologia e relatos de autores romanos ao escreverem sobre os celtas (que podem, supostamente, serem aplicáveis também aos gaélicos), e materiais produzidos após a conversão, como o folclore e a mitologia, registrada normalmente por monges cristãos que colocou sua própria ótica sobre os mitos, fundindo histórias “pagãs” com acontecimentos bíblicos, impregnando também os contos com um teor cristão; no entanto, devemos ser gratos a eles, já que sem o seu trabalho, nunca teria chegado até nós uma tradição literária irlandesa riquíssima que temos hoje. O folclore, no entanto, apesar de “pertencer” à uma época muito posterior à conversão, reteve traços e resquícios da cosmovisão e práticas ritualísticas esquecidas, sendo hoje uma fonte importantíssima para a reconstrução de nossas práticas religiosas.

          Muitos são os motivos para uma pessoa querer ingressar em uma religião que deixou de ser praticada há mais de dois mil anos atrás – seja pelo interesse na mitologia e pela cultura dos gaélicos ou pela descendência gaélica – o fato é que, desde os primórdios do reconstrucionismo céltico, somos todos movidos por uma vontade latente e sincera de cultuar os deuses que os antigos gaélicos cultuavam, adotar sua visão de mundo e incorporar em nossas vidas e atividades diárias e rotineiras a sua ética, sabedoria e seus costumes. Apesar de a religião gaélica ser para todos, nem todos são para ela. O reconstrucionismo hoje está um estado muito incipiente e requer muito trabalho para reconstruir uma religião que foi praticada há muito tempo antes do cristianismo, e nem todos estão dispostos ou tem interesse nisso. A religião gaélica requer estudo, dedicação às tradições culturais dos gaélicos e acima de tudo, um profundo e sincero desejo de adotar os seus deuses como os nossos. E sendo assim, espero suprir a todos com informações sobre essa religião, e como estou profundamente ciente de que ninguém pode ditar ou falar pela religião, muito do que falarei aqui é baseado no meu ponto de vista e observações de como a nossa fé vem sendo praticada e observada pelos seus praticantes. Esperando que o texto a seguir seja útil, cordialmente,

Angus mac Oisín,
21 de janeiro de 2017.

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6 comentários:

  1. Muito bom adorei otmo blog

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    1. Muito obrigado, Lugh. Seja sempre bem vindo! Fáilte!

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  2. Estou realmente muito satisfeita com o blog, de uma qualidade inquestionável. Como é difícil encontrar informaçoes confiáveis por aí! Obrigada, me verá sempre por aqui a partir de agora. Abraços.

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    1. Obrigado, Valéria. É muito bom ler isso, pois sempre me inspira a continuar meu serviço aos Deuses. Seja sempre bem vinda e espero que o blog lhe seja cada vez mais útil. Obrigado pela visita e pelo comentário. Go raibh maith agat!

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  3. Olá. Parabéns pelo blog. To aprendendo muito com vc. Obrigadissima.

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    1. Oi Tânia, querida! Muito obrigado! Espero que o conteúdo esteja sendo útil para você. Obrigado pela visita!

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