Mitologia




Antes de introduzir essa seção do blog, vamos primeiro entender o que é mitologia? Em linhas gerais, a palavra ‘mitologia’ vem de duas palavras gregas: mythos, que significa “contar” ou “narrar” e logos, “estudo”. Logo, podemos dizer que a mitologia é o estudo e o conjunto de lendas e narrativas de determinado povo que consta a história de personagens sobrenaturais, criaturas e heróis míticos. Dentro do nosso contexto, a mitologia gaélica é um estudo fundamental para qualquer praticante – através dela, podemos ver a natureza dos nossos deuses e a forma como a sociedade antiga interagia com o mundo. A mitologia gaélica é o reflexo de sua sociedade e de sua religião pré-cristã, e pode mostrar também práticas ritualísticas comuns àquele povo, embora esta característica seja um pouco ausente na mitologia; um exemplo clássico é a forma como o movimento no sentido horário é bastante usado tanto pelos deuses como heróis míticos, onde sua utilização acreditava-se trazer boa sorte.

Diferente de outras regiões ditas “célticas”, a Irlanda é o país que possui a maior riqueza literária e folclórica de todas as outras, mas como grande parte dos mitos – se não todos – foram escritos por monges copistas (cristãos), é bastante perceptível à presença de alguma simbologia cristã e às vezes até mesmo a fusão de mitos que se acredita serem “pagãos” com histórias da Bíblia. Sendo assim, o praticante terá de estudar os mitos com uma visão de mundo politeísta e com um senso crítico fundamental para discernir as crenças e simbologias cristãs das pré-cristãs.

Acredita-se que a memorização desses contos era uma das atribuições dos poetas – também conhecidos como fili, na Irlanda medieval. O Livro de Leinster, um importante manuscrito compilado em 1160 e que abriga alguns mitos importantes como o ‘Roubo do Gado de Cooley’, nos conta que existiam 350 contos, divididos em primscéla, ou as “histórias primárias” que consistiam em 250 e que se esperava que o poeta memorizasse e as outras 100 conhecidas como foscéla, ou “histórias secundárias” – estas reservadas apenas aos membros com um nível mais avançado de uma hierarquia dentro da casta bárdica, como o nível de ollam ou clí¹, por exemplo.

Além dessa divisão básica dos mitos, os poetas irlandeses medievais dividiam os mitos em  dezoito categorias2 de acordo com determinado evento ou façanha realizado por uma ou mais divindades e/ou heróis míticos, como os cortejos (torchmarca) – sendo “O cortejo de Etain” talvez o mais famoso dessa categoria – ou os roubos de gados (tána), que engloba o épico da mitologia irlandesa: o Roubo do Gado de Cooley.

Ainda além dessas categorias, estudiosos e pesquisadores modernos dividem os mitos irlandeses em quatro ciclos principais que estudaremos mais detalhadamente abaixo. São eles: o ciclo mitológico (o que conta primordialmente as histórias dos deuses), o ciclo feniano, de Fionn ou Fhiannaíocht (que como o nome sugere, relata as histórias do poeta-guerreiro Finn que possui o dom de prever o futuro ou receber inspiração divina através de uma habilidade conhecida como imbas forosnai), o ciclo de Ulster, o ciclo do Ramo Vermelho ou Rúraíocht (que relata histórias e sagas de heróis míticos – o mais famoso sendo Cúchulainn – e também no reinado de alguns reis como Conchobar e Medb), e por último, o ciclo dos Reis ou o ciclo histórico (que se foca primordialmente nos feitos e no reinado de reis históricos ou lendários, como Brian Ború, Cormac mac Airt, etc.).

A mitologia escocesa e manêsa também serão abordadas nessa página. Os mitos serão disponibilizados aos poucos conforme vou traduzindo-os, e há também no final da página de cada mito uma versão em .pdf onde você pode salvar ou facilitar a impressão. Para uma descrição mais ampla e uma abordagem histórica mais detalhada da mitologia gaélica, sugiro dois links que disponibilizarei nas notas de rodapé3. Ah, e por último (prometo), o título da página, Scéalta, é uma palavra em Gaeilge – irlandês moderno – que significa “Contos/lendas”, e que todos vocês sejam mil vezes bem vindos.

O ciclo mitológico

O primeiro ciclo que será estudado aqui será o ciclo mitológico. De todos os ciclos, esse é o mais “divino”, pois conta mais as histórias dos deuses do que os outros, embora alguns de seus “temas” também sejam tratados em outros relatos folclóricos e alguns de seus deuses também apareçam em outros ciclos. Um dos mitos principais do ciclo mitológico é uma segunda batalha épica (conhecida como a 2ª. Batalha de Moytura) entre duas raças de deuses: os Tuatha Dé Danann, uma tribo de deuses que vieram das ilhas ao norte, onde aprenderam todo o seu conhecimento (tanto que ultrapassaram os seus mestres) e associados com as artes e o conhecimento, e os fomorianos (ou Fomoire) que são considerados uma tribo de deuses hostis que “personificavam o mal, o inverno, a escuridão e a morte”, nas palavras de MacCulloch. Nesse ciclo estão contidas histórias importantes para a mitologia irlandesa; no Livro das Tomadas (ou Conquistas) da Irlanda, diz-se que a Irlanda foi invadida sucessivamente por diversas raças de deuses que introduziram na ilha algum conceito ou técnica nova para a raça anterior e/ou modificaram a paisagem através de feitos, moldando a Irlanda até como a conhecemos. Escrito e interpretado a partir da ótica de copistas cristãos, o Livro das Conquistas diz que Cessair (a neta de Noé) foi a primeira “invasora” – ou a que descobriu a ilha – depois do Dilúvio. Logo em seguida, a Irlanda foi invadida por Partholon e seu povo. Em seguida veio o povo de Nemed, o Sagrado, que após batalharem com os fomorianos – que já estavam aqui antes – se dividiram, e uma parte se tornou os Fir Bolg, ou os “Homens dos Sacos” que foram maltratados e escravizados na Grécia e que possuem um características muito ctônica e agrícola, e a outra parte se tornou os Tuatha Dé Danann, que foram para as ilhas ao norte do mundo, conforme já mencionado. Depois disso, os Fir Bolg retornam para a Irlanda seguido pelos Tuatha Dé Danann, onde travam a primeira grande batalha de Moytura. A ultimada tomada se deu pelos filhos de Mil, ou os milesianos, que acredita-se serem os ancestrais do povo gaélico, que tomaram a Irlanda e dividiram-na em duas partes: tudo o que ficava em cima da terra pertencia a eles, e tudo o que ficava em baixo pertencia aos Tuatha Dé Danann, e assim, os Tuatha Dé Danann se tornam o Povo das Colinas, reduzidos à “fadas” na memória popular. Além desses dois mitos importantíssimos para qualquer politeísta gaélico, o ciclo também possui outros focados em algumas divindades específicas contando seus feitos ou acontecimentos, como o Cortejo de Etain e o Sonho de Óengus, por exemplo. Para mais informações sobre o ciclo mitológico, recomendo o maravilho capítulo do J.A. Mac Culloch (que já tenho traduzido aqui) sobre este mesmo ciclo, que colocarei o link nas notas de rodapé4. Há uma coletânea de contos em prosa e em verso que falam de histórias sobre deuses e/ou personagens míticos, algumas das quais não se encontram nos manuscritos – essa “coletânea” é conhecida como dindshenchas, ou “História dos Lugares”, e que devido à sua grandeza, terá um capítulo a parte aqui. Acredito que essas informações preliminares já sejam o suficiente para vocês compreenderem a “fórmula” dos mitos irlandeses e lê-los e estudá-los partindo do pressuposto que eles foram escritos em uma época cristã, por monges cristãos e com ideologia cristã.

Conteúdo
O livro das invasões (em breve)
A lista dos Reis (em breve)
A versão irlandesa da Historia Britonum de Nennius (em breve)
O estabelecer das terras de Tara (em breve)
O falcão de Achill: versos selecionados (em breve)
A conveniência dos nomes (em breve)
O conhecimento das mulheres (em breve)

Os dindshenchas

                Os dindshenchas (literalmente, ‘sabedoria dos lugares’) não são necessariamente um ciclo dentro da mitologia irlandesa, mas uma compilação de poesias e histórias que contam como determinando lugar surgiu ou foi criado, e todos os eventos que já se passaram no lugar. Muitas das histórias de outros ciclos também são encontradas nos dindshenchas, e em outros casos, as poesias complementam as histórias dos outros ciclos. Quando foram compilados, acredita-se que os dindshenchas serviam para dois propósitos: para educar a elite militar sobre o conhecimento necessário dos lugares da Irlanda ou também era um conhecimento essencial para a casta bárdica, que se esperava saberem recitar os poemas como uma forma de entretenimento ou sabedoria ao serem questionados sobre as origens ou histórias de determinada paisagem.

                A compilação é dividida em quatro tipos: os métricos dindshenchas, os dindshenchas em prosa, os dindshenchas de Bodleian e os dindshenchas de Edinburgh. 

Conteúdo

Os métricos Dindshenchas

Volume 2 (Em breve)
Volume 3 (Em breve)
Volume 4 (Em breve)

O Ciclo de Ulster

                Também conhecido como An Rúraíocht, o Ciclo de Ulster é um dos quatro ciclos da mitologia irlandesa e contém o maior número de mitos. Primordialmente, a maioria das histórias se passam em torno do reinado de Conchobar mac Nessa, o rei de Ulster, e envolve muitas histórias e feitos de diversos heróis e heroínas dessa região da Irlanda, sendo os mais conhecidos Cúchulainn, Deirdre e Conall Cernach, por exemplo, sendo Cúchulainn o mais proeminente destes e que desempenha um papel principal e importantíssimo no épico talvez mais importante da mitologia irlandesa, que é o Roubo do Gado de Cuailnge – que faz parte do Ciclo de Ulster – que relata a luta de Medb, a rainha de Connacht, contra os homens de Ulster para roubar o melhor touro dessa região. Vale lembrar que, apesar do título do Ciclo, algumas histórias e personagens não são necessariamente de Ulster, e que embora englobe principalmente feitos heroicos e guerras de reis, muitas divindades aparecem nas histórias auxiliando no desenrolar da trama, como Lugh, Manannán mac Lir e Morrígan, por exemplo.

Conteúdo






Notas de rodapé
1. Um ollamh é o grau mais alto que os poetas da Irlanda medieval podiam alcançar. Estes eram os graus, em ordem crescente do menor grau para o maior: fochloc, macfuirmid, dos, cano/cana, clí, ánruth e ollamh.
2. São as categorias: destruições (togla), roubos de gado (tána), cortejos (tochmarca), batalhas (catha), festas (fessa), aventuras (echtrada), fugas (aitheda), saques (airgne), inundações (tomadma), visões (físi), amores (serca), migrações (tochladada), terrores (uatha), viagens (immrama), mortes violentas (aideda), cercos (forbassa), nascimentos (coimperta) e frenesis (buile).
3. Os links são do website Tairis (em inglês): os artigos Irish mythology você pode acessar clicando aqui, The Problem of Irish ‘Textual Omelletes’ aqui e o Approaches to Celtic Studies, aqui.
4. O capítulo é “O ciclo mitológico irlandês” do livro The Religion of the Ancient Celts, do J.A. MacCulloch. Clique aqui para acessar o texto.